Making of Sadia

Dois making ofs da foto para Sadia.

 

E a foto final, novamente:

5208814964104E2FB274F910D87112CB.jpg

 

Anúncios

Tempo e técnica

Há alguns meses participei de uma mesa redonda com o Clicio, Diego Rousseax e Simone Silvério na Eduk sobre mercado. Uma das discussões mais interessantes foi quando os mais experientes chegaram a um acordo que apenas depois de 10 anos de fotografia o olhar está amadurecido. Como eles tem minha idade em tempo de carreira, aquiesci calado.

Há bons argumentos contra a ideia, e a Simone tinha alguns. Mas na fotografia de produtos especificamente há fundamentos sólidos que corroboram este período longo.

Iluminação de produtos é um quebra-cabeças. A luz não se comporta igual em todos os objetos e você sempre vai encontrar dificuldades únicas. Você pode lidar com alguns problemas apenas com técnica. Para outros, você também precisa de tempo.

E são dois os tempos que importam, aquele despendido na frente do objeto tentando decifra-lo e a experiência acumulada ao longo dos anos. Quanto maior a sua experiência, menor o tempo em frente ao objeto. Fato.

Concluí 10 anos de carreira dedicados exclusivamente à fotografia há relativamente pouco tempo, então vou me dar ao luxo de um exemplo.

66F36167237341C4A734B4A4B4364740.jpg

Fiz essas fotos para a revista Muyinteresante em 2009. A ideia era falar sobre como o desemprego avassalador de 25% que acometia os jovens espanhóis fazia com que os planos de vida fossem postergados. Pensei na ideia, fiz o rascunho e mandei. Eles gostaram e me deram três semanas para fotografar. Foi a minha sorte.

Fotografar gelo não é tão simples. Além da questão técnica de ser um objeto quase transparente, há complicadores na  produção, como textura do gelo, posicionamento do objeto e derretimento. Fiz a foto em fundo branco (seguindo a cartilha de se iluminar objetos transparentes por trás) e não ficou legal. Acabei usando o fundo preto com um flash dedicado em contra-luz para conseguir brilhos mais especulares. Fiz vários testes de congelamento, deixando a água no freezer de algumas horas a vários dias. Descobri que a melhor textura acontecia depois de apenas 24 horas, ficando muito opaca depois deste período. Descobri também que eu não tinha controle sobre o objeto dentro da água, uma vez que o gelo aperta tudo o que estiver dentro dele, mudando o posicionamento. Também quebrei muitos pedaços de gelo tentando molda-los da maneira que queria com facas, serras, pregos e martelos. Conclusão, tive que apelar para o photoshop e só consegui entregar em cima da hora.

Algum tempo depois fiz esta foto para Época Negócios:

4986906629_2b550563bc_o.jpg

Seria relativamente fácil resolver a foto com photoshop, mas desta vez consegui fazer o efeito diretamente nas taças usando um cortador de azulejos. Esteticamente faria diferente hoje em dia, mas guardei uma boa experiência da produção.

Anos se passaram e a Superinteressante veio com uma matéria sobre a disseminação de boatos via whatsapp. Pensei em várias ideias, incluindo uma que envolvia a boneca da Xuxa com uma faca na mão, mas acabaram aprovando esta ideia:

lendas.jpg

Resolvi esta foto em apenas duas horas e meia. Para quem fotografou pedaços de gelo em fundo preto com objetos congelados, fazer um celular no meio de pedaços de gelo foi baba. O mais difícil neste caso seria o sangue, mas eu já tinha tido a experiência com sangue falso em outra foto para super:

F4F383B2199C4FDE9D139F14E93ADD83.jpg

Demorou três dias até eu acertar a viscosidade que eles queriam….

Tempos depois, a Época Negócios precisava de uma imagem que tratasse da crise recente no Brasil. Como gosto de arranjar problema para cabeça, pensei nesta ideia e eles aprovaram:

layout.jpg

Gosto dessa estética um pouco falsa para ilustrações conceituais, então obviamente usei o photoshop no formato do gelo e exagerei alguns reflexos. Mas a essência do formato estava na foto crua. Deixei o gelo exatamente 24 horas no congelador, usei um cortador de azulejos para cortar o gelo e usei um flash dedicado para criar os brilhos. Foi mais fácil que eu imaginava e não precisei mais do que meia diária para fotografar.

Mas perceba que o conhecimento foi acumulado e precisei de anos para que conseguisse fazer a foto em tão pouco tempo. Da primeira para última foram 7 anos.

A juventude e a impulsividade é valorizada acima de quase tudo hoje em dia. A paixão dos vinte e poucos era ótima. Mas fico igualmente animado pelas experiências que as décadas podem trazer.

 

Ilustração 3D x fotografia

Com exceções à regra, o objetivo de uma ilustração 3D é conseguir uma imagem perfeita.

Quando se trata de simular expressões humanas a tecnologia ainda não chegou lá, mas para a representação de objetos a tecnologia já passou há muito a nossa capacidade de perceber a diferença entre realidade e simulação.  Mas o que é uma imagem perfeita? Uma representação fidedigna ou uma idealização do objeto? Para fins comerciais, pelo menos, a resposta é a segunda opção.

Essa discussão é pertinente porque a busca pela imagem idealizada nos afasta da realidade. Um objeto é, também, suas imperfeições, sujeiras e falhas. Nesta perspectiva, nada mais irreal que a perfeição.

Nesta busca pela representação ideal do perfeito há uma diferença fundamental entre fotografia e ilustração 3D. A fotografia é quase tão imperfeita quanto o objeto que ela retrata. Quando buscamos a estética idealizada precisamos retirar aquilo que achamos ser falhas e atrapalham a visualização do produto. Ou seja, partimos de uma representação mais próxima da realidade e aparamos as arestas.

A ilustração 3D, por outro lado, cria uma imagem idílica do zero, criando suas imperfeições. O processo é o inverso, ainda que na prática o resultado pode chegar a ser o mesmo.

Não estou fazendo um julgamento moral de duas artes, apenas uma distinção pragmática e filosófica.

Comercialmente, há espaço para ambas, às vezes competindo, às vezes se complementando.

_07A7922

Aqui está uma garrafa como foi fotografada e após o tratamento de imagem. Perceba que a maioria das falhas foi consertada ou retirada, como rótulo torto, reflexos internos de luz na garrafa, texturas irregulares do vidro, código de barra, entre outros. Mas a essência da garrafa não foi modificada. A meu ver, está bem equilibrada entre sua perfeição e imperfeição, para ser usada comercialmente. Está bonita, sem perder o pé na realidade.

Seria horrível uma fotografia que mostrasse apenas as imperfeições do objeto. Mas seria igualmente ruim uma ilustração 3D que não tivesse falha alguma, deixando o objeto com cara de mockup. Há diversos exemplos disso por aí.

Ao contrário da tendência bem-vinda de se diminuir o tratamento na fotografia de retratos, a “estética idealizada” continua em alta para a publicidade de produtos, mantendo a fotografia e o 3D mais próximos que nunca.

Claro que o assunto é outro quando a proposta é mais autoral.

8575601511_7caf4f3da4_b.jpg

A foto acima se chama “Ansiedade” e não foi necessário nenhum tipo de tratamento, além do mínimo contraste, saturação e nitidez.

Isso não faz dessa uma foto melhor ou pior. Mas a satisfação fotográfica, admito, é outra.

E para você, o que é uma fotografia perfeita?