Belém do Pará – Nantucket

Sou fascinado pelo livro Moby Dick. Já postei esta foto aqui:

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Pois bem, quando visitei a chegada dos barcos de açaí em Belém do Pará a convite do Canon College e do Belém Photos, não consegui tirar o livro da cabeça.

São centenas de barcos que chegam ao cais vizinho do mercado Ver-o-Peso carregando o açaí que você toma em qualquer parte do Brasil, além de peixes, frutos do mar e outros produtos.

Eles vem do interior do Pará, depois de colherem a fruta nas ilhas e margens distantes do rio imenso.

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Já no livro de Herman Melville, Ishmael parte de Nantucket para caçar cachalotes atrás de seu óleo. A narrativa é uma parábola religiosa sem uma interpretação fechada. Enquanto alguns acham que é sobre deus, outros veem uma crítica ao estado ou ao capitalismo. O mais provável é que seja uma alegoria à loucura, centrada no embate entre o capitão Ahab e a baleia branca (leviatã) que lhe tirou a perna. O narrador é o próprio Ishmael.

Logo no começo da história há uma descrição detalhada sobre as diferentes funções dos trabalhadores e o percentual do ganho de cada um. Do cozinheiro ao acionista, ele descreve o papel de todos. Ishmael, novato na pesca baleeira, ficou com 1/300 dos ganhos, enquanto Queequeg, um arpoador canibal talentoso, ficou com 1/90. O dono do barco, o capitão e seus imediatos não tem seu percentual revelado, o que é bem ilustrativo.

O final apoteótico é menos importante que a maneira como Ishmael conta os detalhes da viagem e suas conclusões sobre a moral do homem e seu destino. Tudo isso enquanto limpa o convés e rema seu bote. É um personagem inteligente, mas sem atuação relevante para a trama, que poderia ser facilmente ignorado. A não ser, é claro, pelo fato de ter sobrevivido para contá-la.

De volta a Belém, todos neste lugar tem uma função definida. Há, entre outros, pilotos, negociantes, motoristas de caminhão, vendedores ambulantes e carregadores. Estes últimos, seres notáveis que carregam mais de cem quilos nas costas, dezenas de vezes ao dia. Em uma ponta desta pirâmide estão os donos dos barcos, muitos deles dormindo em suas casas. Na outra ponta, desfavorecidos que catam o açaí caído entre as frestas do pavimento antigo, tentando, de migalha em migalha, juntar um saco para vender. Cada um tem seu quinhão e ninguém faz o trabalho do outro.

Quando amanhece, o trabalho já está feito e muitos encostam para dormir.

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Além da hierarquia náutica, outra semelhança com o livro é o pano de fundo religioso. Para começar pelo próprio nome da cidade, que faz alusão à cidade da Judeia, onde cristo nasceu. Há diversos santos espalhados pela feira e igrejas barrocas bem próximas ao cais. A arquitetura colonial e a má conservação dos arredores envelhecem a atmosfera, remetendo o visitante à outras épocas, como do ciclo da borracha.

É digno de nota também o sotaque peculiar do paraense interiorano, que exige concentração (pelo menos para mim). Moby Dick também tem seu linguajar característico, com frases longas e cheias de inversões e gírias marinhas. Impossível ler sem um dicionário náutico ao lado.

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Herman Melville compara constantemente o óleo de baleia com o ouro em seu livro.

O açaí é o ouro roxo do Pará.

E a alegoria da loucura está nos donos dos barcos dormindo, enquanto carregadores levam 100kg nas costas e outros catam açaí entre os vãos. Mas este leviatã é invisível.

Se fosse paraense, Ishmael estaria de cócoras.

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Kypers Barcelona

Pouco texto e mais imagens hoje.

Adoro fotografar óculos. Em still são lindos e desafiadores.

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Em pessoas é um pouco mais simples, mas bem mais divertido.

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E como eu não consigo me segurar, fiz algumas animações:

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Equipe:

Flávio Demarchi – fotografia
Marcello Bucaretchi – direção de arte
Leila Silva – direção
Cebola – Vídeo

 

A internet não esquece

Às vezes você faz uma foto durante um período conturbado e acaba esquecendo de pedir para o cliente mandar a revista ou o pdf. Tomei um susto esses dias ao encontrar umas fotos que fiz para a revista DASA (do grupo Delboni Auriemo) em 2014.

Como não há mais ninguém que eu conheça na editora, nem fui eu que tratei as imagens, se não fosse a internet não teria visto como ficou.

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Fotografia e ansiedade – parte 2

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No último post listei alguns fatos que, na minha opinião, tornam a fotografia um imã para instabilidades mentais. Se me permitem, vou oferecer algumas dicas que podem ajudar um fotógrafo a não cair nestas armadilhas. Entendam este post como um alerta aos iniciantes, assim como um lembrete para mim mesmo, já que nunca estamos completamente livres deste mal.

Estou partindo do princípio que a sua ansiedade tem origens nas dificuldades da carreira fotográfica. A lógica é simples: ao deixar a sua carreira mais previsível e fluente de trabalhos, a ansiedade vai diminuir. Nada disso vai ajudar se a causa do transtorno é química ou tem outros motivos. Por isso começo com o mais importante:

  • Se você já sofre de ansiedade, procure um psiquiatra. Não menospreze o conhecimento de um especialista tentando escapar deste mal sozinho. Você confiaria em seu médico para fazer as fotos do seu casamento ou da sua empresa? Então não confie no blog de um fotógrafo para te dizer como sair da ansiedade: procure ajuda. Preconceitos com a saúde mental pertencem ao século XIX, não a 2019.

 

  • Tenha muita paciência no começo de carreira, fotografia só é fácil na aparência. Manter-se fotógrafo com o passar das décadas é uma tarefa árdua. Os primeiros anos apresentam muitas dificuldades e servem como um filtro cruel, retendo talentos incríveis pelos motivos mais vulgares. Não tenha tanta pressa em largar um emprego fixo, espere até conhecer melhor o mercado e sua sazonalidade. Se possível, seja assistente de um fotógrafo experiente que você admire.

 

  • Busque de maneira gradual e constante uma maior formalização do seu trabalho: tenha um cnpj, endereço, pague o inss, busque profissionais de contabilidade, assistentes fixos e, se possível, uma equipe de vendas.

 

  • Tenha metas bem definidas e realistas. Expectativas sob controle, ansiedade sob controle.

 

  • Aja como um profissional atendendo seu cliente como gostaria de ser atendido. O tempo dos fotógrafos artistas intocáveis acabou, pé-no-chão, por favor. Entregue as fotos no prazo, responda emails rapidamente, não deixe mensagens sem ler no whatsapp, proporcione uma boa experiência para seu cliente, faça análises constantes de seu mercado, vista-se de acordo à ocasião, entre outros. Quanto mais profissional você parecer, mais irá se sentir. Com o tempo, a confiança artificial se naturaliza.

 

  • Aprenda a lidar com a volatilidade do mercado: não contraia grandes dívidas quando o mercado está aquecido, nem se desespere nas baixas.

 

  • Controle seus custos! Em tempos bicudos controlar os gastos é tão ou mais importante que correr atrás de trabalhos. Tome um cuidado especial com a compra de equipamentos: adquira o mínimo necessário para atender bem seu cliente, não o equipamento que você quer ter. Quando necessário, alugue. Isso também vale para estúdios fotográficos.

 

  • Não entre em guerra de preços com seus concorrentes: fotografia não é sabão em pó! Além da pressão insuportável que essa estratégia traz, os melhores preços tendem a atrair os piores clientes. E quem gosta de ser mal pago para lidar com gente chata? Isso não significa que você deva atender somente às classes mais altas da sociedade; até quem possui verbas limitadas sabe que não se consegue o melhor serviço pelo menor valor. Cobre um preço justo dentro do intervalo que seu cliente está disposto a pagar.

 

  • Busque a crítica adequada: não adianta perguntar a opinião da sua mãe, ela não é (e nem deveriam ser) imparcial. Do mesmo modo, não busque a opinião de qualquer um em fóruns de fotografia, onde o parecer crítico é mais valorizado que a opinião sincera. Os extremos não funcionam. Tente encontrar pessoas que se importem com sua evolução e tenham conhecimento da nossa área, como um amigo ou um professor. Saiba, acima de tudo, quem é seu cliente e quais são suas preferências. De um jeito ou de outro, saiba que você não é o melhor fotógrafo do mundo.

 

  • Pelo caráter relativo da arte, saiba que um mau-fotógrafo/bom-vendedor tem mais futuro que um bom-fotógrafo/mau-vendedor. Procure saber mais sobre como vender seu peixe. Não caia na armadilha “a minha arte vai falar por si”.

 

  • Ao contrário do que você aprendeu na sessão da tarde, diminua as decisões instintivas, substituindo-as pela coleta e análise de dados. Em caso de acerto, você contou com os próprios méritos, não com a sorte. Em caso de erro, terá critérios para avaliar o problema. Sei que é quase impossível termos acesso a todos os dados necessários para uma decisão 100% racional, mas o mantra “trust your feelings” não é a melhor estratégia para se conduzir um negócio. Deixe-o para quando precisar destruir uma estrela da morte com sérios problemas de projeto.

 

  • Não se engane em relação às redes sociais. Para muitos o instagram é uma ferramenta fundamental para encontrar clientes. Mas o tempo que você gasta vendo fotos de viagens na indonésia ou stalkeando o ex não é exatamente tempo produtivo de trabalho, é? Perda de tempo em redes sociais traz dois enormes problemas: inveja e procrastinação. E o pior é que estamos todos à mercê. O meu mal são os canais de ciências e basquete do youtube. Qual é o seu?

 

  • Conecte-se com mais pessoas, de parceiros de trabalho a clientes e até concorrentes. Ter mais informações sobre o mercado em que atua é fundamental, e nada como uma mesa de bar para se colocar a par do que anda acontecendo. Em relação aos concorrentes, saiba que nem todo capitalismo é predatório; doar é também receber.

 

  • Saboreie as vantagens dos horários flexíveis: vá para praia em uma quarta-feira, brinque com seu filho em horário comercial, vá ao cinema e seja o único na sala. Se não tomar cuidado, seu trabalho flexível se tornará o mais inflexível de todos.

 

  • Mantenha-se ativo nos intervalos de trabalhos. A fotografia autoral é um combustível limpo para o ânimo.

 

  • Nunca, JAMAIS pare de estudar. Você pode complementar informações com vídeo-aulas, mas tente fazer pelo menos um curso presencial por ano. Além do conteúdo, você pode conhecer mais pessoas na mesma situação que a sua, expandir a rede de contatos, conhecer possíveis parceiros, sócios e até clientes! Acredito também que a autodidática é um conceito superestimado que leva a caminhos tortuosos e tempos de aprendizagem dilatados. Nada como um bom professor para colocar o aluno no rumo certo e inflar sua moral.

 

E aqui, com este final que mais parece merchandising para workshops, eu finalizo por ora com o que aprendi nos últimos anos lidando com a sombra da ansiedade. Termino com uma frase de um livro interessante, transformado em um filme hollywoodiano medíocre, que descreve bem a atitude ideal em um mundo em constante evolução: “Movimento é vida”.

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