Fotografia e ansiedade – parte 1

Muita gente entende a fotografia still como uma arte fria, desumana. Eu, claramente, discordo.

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Fiz esta foto aparentemente simples em 2012, um ano depois de ter sofrido um ataque de ansiedade. Para mim, ela exprime a dor sem motivo aparente, prestes a estourar, que esta doença traz.
Não vou descrever todos os sintomas que tive, mas garanto que foram horríveis e que demorei alguns anos para me recuperar. Hoje, graças à minha família e ajuda profissional, a minha ansiedade está sob controle.

Acontece que não estou aqui para falar sobre mim, mas sobre como a profissão de fotógrafo nos expõe a certos riscos. Este é um tema mais apropriado para profissionais de saúde, mas acredito que posso dar alguns pitacos no que se refere ao nosso dia-a-dia, uma vez que fui vítima, além de ter reconhecido os mesmos sintomas em dezenas de outras pessoas para quem dei aula no decorrer dos anos. Ainda assim quero deixar claro, se você já sofre de ansiedade, procure um psiquiatra. Não brinque com sua saúde mental, nem tente resolver tudo sozinho.

Não posso afirmar com o rigor científico que não possuo, mas desconfio seriamente que fotógrafos são muito suscetíveis à ataques de ansiedade e outros transtornos psíquicos.

Neste primeiro post vou elencar algumas possíveis causas. No próximo, falarei sobre como mitigar os riscos.

Não me entendam mal, não quero dissuadir ninguém de tentar essa profissão, muito pelo contrário, eu ofereço video-aulas e workshops porque tenho certeza que a fotografia possui vantagens substanciais em relação a diversas outras carreiras, além de promover satisfações artísticas profundas. Mas não posso evitar de pensar nos conhecidos que perderam tempo e talento perseguindo um sonho sem saber o preço que ele cobra. Entendam este texto como alerta, não como um sermão.

  • Informalidade: com raras exceções, a fotografia é uma área de autônomos, lotada de amadores e profissionais trabalhando feito baratas-tontas sem planos de futuro (até porque, para nós, viver da nossa paixão é a finalidade em si). Isso faz da fotografia uma profissão onde a precarização do trabalho reina absoluta. Ainda que há vagas fixas, estas estão majoritariamente dentro de empresas de e-commerce e eventos, onde os salários são relativamente baixos e apelam mais aos iniciantes. Para que tenham uma ideia, é comum que um único trabalho como freelancer pague mais do que um mês inteiro de um fotógrafo CLT, afastando os mais experientes destes trabalhos formais. O problema é que nem todos estão prontos para as imprevisibilidades da carreira autônoma, tanto financeiramente quanto emocionalmente. Na verdade, não conheço ninguém que tenha nascido pronto para isso.
  • Imprevisibilidade: um fotógrafo é um prestador de serviço como outro qualquer. Alguns de nós, especialmente aqueles que trabalham em publicidade, somos os prestadores de serviços dos prestadores de serviços, o que nos torna duplamente expostos às crises. Ainda que a fotografia seja fundamental, sempre haverá alternativas mais baratas que a contratação de um bom fotógrafo, mas nunca melhores. Assim, o fator cíclico e imprevisível do mercado afeta a todos, independente do nível profissional. A diferença é como nos preparamos para estes momentos de baixa.
  • Solidão: temos diversos parceiros, como assistentes, produtores, maquiadores, e, algumas vezes, até sócios, mas não há estúdio fotográfico com a mesma efervescência de uma empresa com dezenas de funcionários. Até mesmo retratistas (especialistas dos encontros rápidos) enfrentam mais horas olhando para emails que para os olhos de outras pessoas. Para os misantropos, esta descrição pode soar como um oásis, mas a experiência me diz que a falta de contato (e tato) cobra seu preço com o passar do tempo. Além de não ter ninguém a seu lado para compartilhar angústias, você também perde uma inestimável fonte de crítica.
  • Profissionais multi-tarefa: fotografar, cobrar cliente, direcionar a produção, montar orçamentos, escolher e cobrar terceiros, passar notas fiscais, pagar impostos, pintar fundo de estúdio, mandar equipamento para o conserto, responder emails, atualizar redes sociais, pesquisar mercado, visitar clientes potenciais, comprar cartões de memória novos, tratar fotos, etc, etc etc. Saiba que no começo você vai fazer tudo, mesmo aquelas atividades que você não gosta. O fator de ansiedade ocorre quando você não está em dia com as obrigações, elas vão se acumulando e formam uma lista sem fim. Você vai dormir sabendo que no dia seguinte não vai dar conta do que precisa fazer.
  • Comparação: existem talvez milhões de fotógrafos no mundo, alguns milhares de profissionais excelentes, e com certeza alguns muitos que são melhores que eu e você. Conhecer um fotógrafo novo, com um portfólio fresco e robusto, pode ser um exercício brutal para o ego. Some isso à solidão e você pode se tornar um fotógrafo em frangalhos.
  • A arte é relativa: taí algo difícil de se acostumar para alguém que vem de uma área científica do conhecimento. A mesma foto pode ser considerada horrível ou maravilhosa, dependendo das condições. E elas podem ser muitas, varia de pessoa para pessoa, de dia para dia, de finalidade para finalidade, de cliente para cliente, de fotógrafo para fotógrafo (esta é cruel, quando a mesma foto é analisada de maneira diferente, dependendo de quem tirou a foto), entre tantas outras. Acostumar-se com essa característica leva tempo e às vezes nunca chega. No setor da moda, por exemplo, essa volatilidade é extrema! Um mesmo fotógrafo pode ser o queridinho das marcas em um verão e no inverno subsequente já caiu em desuso.

No próximo post vou me dar o direito de oferecer algumas dicas que acredito úteis para quem quer se aventurar na fotografia sem ansiedade.

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9 comentários em “Fotografia e ansiedade – parte 1”

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